Desenvolvimento Humano

Carreira Objetiva e Carreira Subjetiva

Por Dr. Petrus Raulino

O primeiro autor a mencionar as duas faces da carreira – carreira subjetiva e carreira objetiva – foi o sociólogo Everett Hughes1,2, da escola sociológica de Chicago. Ele afirmou que no trabalho ocorre o encontro do status social e do papel pessoal. Por um lado, a carreira é a sequência de ocupações profissionais pelas quais o indivíduo passa em sua vida e que é evidente para o observador.  Por outro lado, a carreira se compõe do processo experimentado subjetivamente.

A dualidade ontológica é uma propriedade central de uma carreira3. Ou seja, as duas faces da carreira – carreira objetiva e carreira subjetiva – são inseparáveis. Uma face é o aspecto público ou estrutural – a face objetiva – e a outra face é a experiência do indivíduo diante dos desdobramentos de sua carreira – a face subjetiva. De um lado, estão os aspectos típicos do mundo social, tais como posição, remuneração, status e situações que representam marcos na escalada da rede social. De outro lado, o sentido que o indivíduo atribui à sua carreira e às suas transformações, suas narrativas, as definições conferidas às situações, que possibilitam o alinhamento do indivíduo à sua biografia, dando coerência aos eventos de sua vida.

Embora o estudo de uma ou outra face isoladamente viole a integridade da concepção original de Hughes, muito se tem aprendido ao pesquisar uma única face dessa dualidade. Em revisão de artigos entre 1980 e 1994, 75 por cento dos artigos tinham como foco a perspectiva objetiva da carreira4. Entretanto na década atual, com a crescente ênfase do indivíduo como autor da construção de sua identidade profissional e de sua busca por sucesso subjetivo, o interesse pela pesquisa dos aspectos subjetivos da carreira ganhou novo ímpeto.

A despeito da tonalidade própria de cada autor, podemos considerar que no estudo de carreiras há duas grandes vertentes de concepções sobre carreira, a saber:

  • Carreira objetiva ou carreira externa: são os aspectos extrínsecos da carreira, que podem ser observados por um observador externo;
  • Carreira subjetiva ou carreira interna: são os aspectos intrínsecos da carreira, que se fundamentam na perspectiva do próprio indivíduo.

De um lado, vários pesquisadores continuam a conceituar o sucesso na carreira tomando como referencial a posição na organização ou as promoções alcançadas. De outro lado, cada vez mais os teóricos de carreira têm falado sobre “carreiras sem fronteiras”, onde as oportunidades de carreira vão além de uma única organização4, e do sentido eminentemente pessoal do sucesso na carreira5. No contexto atual, há especialistas em carreiras que sugerem uma reaproximação entre a teoria de carreira e a pesquisa do sucesso na carreira6, ou seja, sugerem que as pesquisas do sucesso na carreira também avaliem os aspectos subjetivos e intangíveis com o mesmo empenho com que avaliaram os aspectos objetivos e tangíveis ao longo das últimas décadas.

Por fim, é notório que o processo acelerado de transformações sociais e tecnológicas dos últimos anos tenha levado a uma expansão do conhecimento e a um crescente reconhecimento de realidades intangíveis antes ignoradas.  Podemos colocar nesse contexto a valorização dos aspectos psicológicos e comportamentais da pesquisa de carreira. É um fato que não cabe mais ignorar: o fator humano é o grande diferencial competitivo das organizações e a principal base para a realização das famílias.

Referências Bibliográficas

  1. HUGHES, E. C. Institutional office and the person. American Journal of Sociology, 43, 404-413, 1937.
  2. HUGHES, E. C. Men and their work. Glencoe: Free Press, 1958.
  3. BARLEY, S. R. Careers, identities, and institutions: the legacy of the Chicago School of Sociology. Em: ARTHUR, M. B.; HALL, D. T.; LAWRENCE, B. S. (Org.)  Handbook of Career Theory. Cambridge University Press, 1989.
  4. ARTHUR, M. B.; ROUSSEAU, D. M. Introduction: the boundaryless career as a new employment principle. Em: ARTHUR, M. B.; ROUSSEAU, D. M. (Org.) The Boundaryless Career. New York: Oxford University Press, 1996.
  5. HALL, D. T. Careers in and out organizations. Thousand Oaks: Sage Publications, 2002.
  6. ARTHUR, M. B.; KHAPOVA, S. N.; WILDEROM, C. P. M. Career success in a boundaryless career world. Journal of Organizational Behavior, 26, 177-202, 2005.

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